A Procura Viking

domingo, 3 de março de 2013

O Monstro do Ármario

Conto da Semana

Há muito tempo "ele" estava ali. Ansiava por "aquele" que o espreitava.

Onde esperava era frio. escuro.aconchegante.

Quando foi a ultima vez que saira de lá?

Não fazia idéia, mas em seu intimo sabia que logo sairia dali.

 talvez o anuncio da liberdade estivesses naqueles indagadores passos

tac!tac! tac!

Os passos sempre cessavam bem próximos a "ele".

--Venha!!! 

Berrava seu coração acelerado.

tac! tac ! tac ! 

--Vamos, mais alguns passos.

Nada.

Há quanto tempo não deslizava suas garras insinuosas contra o pescoço de um jovem corajoso?

Quanto sangue  fora derramado ali, por uma simples escolha. Abrir o armario velho.

Seu corpo velho e cansado necessitava sentir os jatos de sangue molhando seu rosto deformado pelo  fogo de eras passadas. O sangue descia pela sua garganta tocando seu peitoral cheio de cicatrizes tapadas por seu pelos.Lembrava  que suas duas corcovas  também sentia o calor da vida sendo derramada sobre ele.

Saboreava-se com suas lembranças.

Nunca precisou do mundo la fora. Não estavam pronto para ele ou estavam prontos o bastante. Pensar em sair dava cala frio. Seu único olho no meio da face não curtia o barato da claridade. Enxergar não era necessário quando se tinha dois narizes com  olfato apuradíssimo e uma audição que pouco o enganava.

--Recostou em seu armário metálico. Há sua frente, apenas o azul metalico do seu pequeno cubículo chamado armário. Fora dele.hahaha.fora dele....Vida.



Saimon era um garoto genial, 15 anos e já era tricampeão da feira de ciências modernas da cidade.Mas não se limitava a isso, era o armador e capitão do time de basquete da sua cidade, seus lábios grossos, e seu nariz grande e achatado eram motivos de chacotas entre os boyzinhos. Ele ignorava, sua cor nunca fora uma vergonha e nem era o motivo de seus esforços para ser melhor que todos em  varias coisas. Saimon tinha um plano. E ser bom em coisas que gostava fazia parte desse plano. Por hoje só isso saberemos dos planos desse jovem.



Como todo sábado, fazia sol. Era necessário irrigar a grama do quintal. Essa era a tarefa que Saimon executava desde menino.

--Vá, desça e ligue a torneira que fica no saguão da antiga garragem.Mas.....

A garagem era pequena e velha. O bege que fora motivo de discussão na mesa do jantar há séculos atrás já não se fazia presente,era apenas uma cor velha de madeira podre.Uma porta apenas,sem janelas, chaminés e qualquer outra  forma de saida. Parecia uma prisão.

--Pelo amor de Deus,não toque naquele MALDITO armário!!--Sua mãe alertara.

Era maio,talvez o ultimo maio.Saimon  adorava profecias e essas coisas de fim de mundo. Se fosse para ser o ultimo sábado de maio de todos....

--O que será que tem naquele armário?

Caminhou pela grama quase verde com a curiosidade habitual. Odiava descer naquele lugar,sentia frio e por varias vezes se pegou procurando por alguém que o observava.

--É só coisa da minha cabeça.

  De frente para porta velha, se lembrou da noite em que seu avô por parte de mãe fez uma espécie de ritual, algo com sal  e palavras que ele não compreendia muito bem.Nunca sentiu tanto medo como naquela noite e jurou  nunca entrar  naquele lugar estranho,mas uma queda tornou impossível para sua mãe realizar a tarefa de descer aquelas escadas sozinha e ligar a bomba que irrigaria toda a grama.

--Querido, não há perigo!!Só fique longe daquele MALDITO armário!!

Arrastou de leve o seu chinelo velho contra a terra certificando que o sal permanecia ali.Sim, genial, o que quer que seja, esta  preso, não pode sair da garagem, porem, ficara preso comigo lá dentro.--sorriu com os lábios trêmulos de ansiedade,exatamente como fazia todos os sábados.Mas sentia que aquele sábado seria diferente.Por que? Não  fazia idéia.

Abriu a porta de uma só vez e dando uma olhadela ainda  estando do lado de fora  verificou o velho fusca  de seus antepassados tapado com uma lona empoeirada, colocou apenas a cabeça para dentro encontrando ali as bugigangas de seu  avô. Respirou fundo e tomado de coragem olhou para o vão com as escadas  para baixo. Estralou os dedos da mão. Seu ritual particular. E entrou. Passos rápidos, quase que uma corrida de marcha. É engraçado como temos o desejo de não deixarmos transparecer o medo, mesmo achando que não há nada para temer, por algum motivo o medo estava lá, sim estava no MALDITO armário do vô.

O fusca já ficara para trás,agora era só....Parou olhando atentamente para a escada.Se agachou e pegou do lado do corrimão sua lanterna,era tão grande que era necessário segura-la com as duas mãos.Ascendeu iluminando a parede,olhava para a parede a sua frente.

--Quando você descer a lanterna pela parede ate o fim da escada não haverá ninguém lá garotão. Vamos!

Deu o primeiro passo pelo degrau da escada e sentiu o ranger da tabua velha arrepiando seus pelos, impulsivamente iluminou o fim da escada. Nada.

Um já foi, agora faltavam dez,nove,oito...Medo,o  ranger agudo e torturante, e o calor o acompanharam ate o fim da escadaria.

Tac! Tac! Tac! Tac!

"O monstro acordou"

Caminhava  desabotoando parte de sua camisa, estava abafado,um quarto embaixo da garagem de madeira, a torneira estava a cinco passos a direita, sabia disso, mas....

--E se hoje fosse o ultimo sábado de todos?

A lanterna  iluminava o armário azulado, igual ao que ele usava na escola  para guardar seu material .Mesmo com todo aquele ritual e clima, ainda assim queria abrir aquele armário. O chão úmido fazia seu passo estralar provocando um eco,nada escandaloso,mas audível o bastante para  "ele" escutar.cinco passos para frente.

Tac! Tac! Tac! Tac! Tac!

Mais dez passos e estaria de frente para o armário,a voz de sua mãe conflitava com sua própria idéia de ultimo sábado.

Maldito armário!Ultimo sábado!Sábado! Armário! MALDITO! MALDITO!MALDITO SABADO.

--Gyaaaaaaa--Estremeceu

Um pássaro entrara pela porta agitando suas asas e gritando por cima do fusca.

Saimon fechou os olhos forçadamente, fora dominado por uma dor de cabeça gerada pelo susto, Saimon tinha muito disso. Nunca fora um jovem de fortes emoções.

Dane-se o pássaro,as palavras da sua mãe e o ritual de seu avô, estava determinado, dez passos vorazes ate o armário, mão na maçaneta.

Dane-se o Sábado. Girou a maçaneta.



Dentro do armário escutava.

Tac!Tac! Tac!Tac!

Adrenalina. Respirar se tornava exaustivo.Ofegava alimentado pelo desejo.

-É agora, É agora!

Tac! Tac! Tac!Tac! Era  o barulho da água que pingava da torneira.

Tac! Tac! Tac! --A torneira pegava pressão e era o fim da goteira.

Tac! Tac! T..Silêncio....



Saimon Não andou para frente nem  para trás.Jamais deu passo algum, se virou ligou a torneira e partiu. Não seria o ultimo sábado hoje. Talvez sábado que vem.



Muller da Costa  Rocha Gomes

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